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Última Modificação: 22/11/2021 13:50:10 | Visualizada: 7 vezes
 
22/11/2021
Fonte: https://www.bbc.com/portuguese
Crédito: Reportagem
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Eventos mundiais catastróficos provavelmente contribuíram para levar as comédias para o lado sombrio.

Os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 foram apenas o começo de um desgaste contínuo das ilusões de segurança e garantia de progresso características da vida no mundo ocidental nas décadas de 1980 e 1990. Com o medo permanente do terrorismo, guerras, colapso dos mercados financeiros, tiroteios, polarização política e a pandemia de covid-19, as duas últimas décadas marcaram a perda da inocência para muitos ocidentais que criaram a maior parte das séries em língua inglesa.

Os dramas já vinham se tornando mais complexos e sombrios antes do 11 de Setembro com o sucesso fenomenal, nos Estados Unidos, de The Sopranos (no Brasil, Família Soprano), após sua estreia em 1999. E muitas séries vinham ignorando a barreira entre a comédia e o drama - antes e depois do 11 de Setembro - graças, muito provavelmente, à liberdade criativa oferecida, primeiro pela TV a cabo e, depois, pelo streaming.

Mas existe algo mais estimulante na descoberta dos momentos mais sombrios e profundos infiltrados nas comédias. Embora o humor negro fosse um gênero reconhecido no cinema e no teatro há décadas, a televisão havia tradicionalmente evitado os experimentos no setor. Por isso, no século 21, as comédias para TV se tornaram um espaço para discutir as contradições do mundo, reconhecendo que, mesmo nos nossos melhores momentos, a vida pode nos dar um soco no estômago - e, principalmente, que podemos rir até nos nossos momentos mais tristes.

Um exemplo claro da evolução desse gênero é a série Ted Lasso, recente sucesso internacional, com sua premissa ampla que teria facilmente se transformado em uma série "sitcom" clássica de antigamente: um técnico de futebol americano simples e folclórico (interpretado pelo cocriador da série, Jason Sudeikis) muda-se para o Reino Unido e recebe a tarefa de treinar um time de futebol inglês - mas ele não compreende o jogo e não se enquadra na cultura totalmente diferente do país.

É um cenário clássico de "peixe fora d'água", exibido em toda a história da televisão, desde a série norte-americana Green Acres, na década de 1960, até 3rd Rock from the Sun (Uma Família de Outro Mundo, no Brasil), nos anos 1990. Mas, como fenômeno do século 21, a série se transformou em algo completamente diferente na segunda temporada: exploração dos perigos da masculinidade tóxica e dos poderes redentores da vulnerabilidade, honestidade e do reconhecimento dos colegas. A série ainda é, às vezes, muito engraçada. A vida de Ted poderá ter mais dificuldades que a dos seus parceiros do século passado, mas o panorama da série, pelo menos após duas temporadas, é abertamente otimista.

As comédias sombrias incluídas na lista das 100 melhores da BBC podem não ser tão idealistas, mas a maioria delas encontra-se no lado do otimismo ponderado.

A personagem-título da série britânica Fleabag trabalha com seu luto, enquanto Rebecca de Crazy Ex-Girlfriend aprende a lidar com seu transtorno de personalidade limítrofe ("borderline"). Elas sobrevivem a sérias dificuldades e conquistam seus finais felizes - muitas vezes aceitando um trauma e seguindo em frente para se tornar uma pessoa mais sensata.

Isso faz com que essas séries sejam o bálsamo perfeito para tempos incertos: elas não tentam nos convencer de que tudo é positivo - elas abordam as dificuldades do mundo real, que só se agravaram no final da década de 2010 e ao longo de 2020.

O fim dos gêneros

Naturalmente, algumas das grandes séries cômicas do século 21 são totalmente sombrias, sem uma abertura sequer para a luz. Veep terminou com uma condenação profundamente cínica da política dos Estados Unidos, enquanto Succession ainda precisa revelar algum traço de otimismo sobre a família Roy, a rica dinastia norte-americana das comunicações que protagoniza a história.

A aclamação da crítica e o frenesi que cultua a atual temporada da série Succession ressaltam a ressonância do público com a exibição da ganância, incompetência e impunidade dos super-ricos que administram impérios midiáticos de bilhões de dólares. Para os personagens da série, as mudanças de poder e as loucuras desesperadas são dramáticas; para nós, o público, elas são absurdamente cômicas.

Na verdade, é difícil classificar Succession em um gênero. Seus episódios têm uma hora de duração, com muitas reviravoltas dramáticas; a série é deliberadamente shakesperiana; e o prêmio Emmy de 2021 a chamou de drama. Mas ela oferece momentos hilariantes em cada episódio.

Em Succession, existe a comédia no estilo de O Gordo e o Magro entre o genro Tom e o primo Greg. Há o filho ambicioso Kendall, com seu conceito misto de comédia tradicional e "cringe comedy" (humor com a vergonha alheia) de como é importante seu pai, o patriarca da família. E existe ainda o pequeno detalhe das manchetes falsas divulgadas pelo canal noticioso da família Roy (similar à Fox News), ATN, como: "Imigrantes ilegais de gênero fluido podem estar entrando no país 'duas vezes'".

A única palavra que temos no momento para descrever Succession é o neologismo "dramédia" - ou comédia dramática, que historicamente indicava um drama leve, como Ally McBeal (Ally McBeal: Minha Vida de Solteira, no Brasil) ou The Marvelous Mrs. Maisel (no Brasil, A Maravilhosa Sra. Maisel), em oposição às comédias mais sombrias.

Todas as comédias sombrias mencionadas na lista das 100 melhores séries da BBC são em língua inglesa e somente uma série cômica em língua não inglesa foi incluída na lista: a francesa Dix Pour Cent.

Paralelamente, diversas séries dramáticas em outros idiomas foram mencionados - The Bridge (A Ponte, no Brasil), Borgen, La Casa de Papel e outras, o que sugere que as comédias geralmente são traduzidas com mais dificuldade, especialmente as comédias sombrias, com suas sutilezas.

Isso havia sido confirmado anteriormente: os trocadilhos e as expressões misantrópicas da série Seinfeld, sensação norte-americana dos anos 1990 que foi evidente precursora das comédias sombrias atuais, representaram um evidente desafio para os tradutores e a audiência internacional de Seinfeld foi muito inferior à de Friends, que era mais simples e leve.

Por isso, muitas comédias para TV fora do mundo de fala inglesa também distorceram os gêneros recentemente. A série japonesa Hibana: Spark usa seu ambiente fundamentalmente cômico - dois comediantes que trabalham juntos - para se tornar um tanto existencial. A série sul-coreana One More Time é uma comédia romântica em forma de novela sobre um músico preso em um laço temporal. A francesa A Very Secret Service é uma paródia do gênero de espionagem e a sueca Fallet representa o nórdico sombrio.

Estas séries não são tão sombrias quanto Succession, mas parece provável que haverá outras misturas de gêneros internacionais à medida que o streaming oferecer acesso a programas de todos os países para o público internacional.

E, é claro, existem muitas exceções para a mudança das séries cômicas para o lado sombrio no século 21.

 

30 Rock/Um Maluco na TV tinha um tom satírico cínico, mas ainda era essencialmente uma "sitcom" tradicional no local de trabalho, recheada com mais piadas por segundo que talvez qualquer outro programa na história da TV. Parks and Recreation (Confusões de Leslie, no Brasil) oferecia uma clara visão leve da política local na era Obama. E a série canadense Schitt's Creek atingiu inicialmente uma postura irônica - com aquelas pessoas desagradáveis que haviam sido ricas e agora eram forçadas a viver no meio do nada - para depois contradizer essa imagem a todo momento, ao criar uma visão utópica da vida nas cidades pequenas que recebem todas as pessoas.

A questão real não é se a leveza ou o aspecto sombrio irá prevalecer nas comédias para TV à medida que avança o século 21. BoJack Horseman é o exemplo perfeito de como a comédia real pura - boba, engraçada, simplória e animada - pode se transformar em uma delicada meditação sobre o sentido da vida.

Na cena final da série (atenção: spoiler!), BoJack, que saiu da cadeia por um dia para ir a um casamento, senta-se no teto de uma casa com sua amiga Diane - a mais próxima de uma alma gêmea que ele chegou a conhecer. Ele conta a ela um pouco sobre a vida na prisão e ela encolhe os ombros. "É, mas o que podemos fazer?", diz ele. "A vida não presta e a gente morre, não é?"

"Às vezes", responde ela. "Às vezes a vida não presta e a gente continua vivendo." Pausa. "Mas hoje está uma bela noite, não é?"

"É", diz ele. "Uma bela noite."

O título do episódio é Nice While it Lasted (no Brasil, Bom Enquanto Durou).

Ele traz de volta a antiga questão: quando a distinção entre comédia e drama irá se tornar irrelevante? Quando estaremos prontos para admitir que a via é engraçada e triste, bela e trágica, e que a arte, na sua melhor forma, reflete tudo isso, seja ela qual for?

E até, talvez especialmente, a televisão.

 
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